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6.6.08

O mercado mundia II. Pergunta do André.







Pergunta do leitor: Rogerio, faltou aí mostrar o quadro da produção mundial. Se comparar o volume produzido no velho mundo e no novo mundo e o market-share mundial, a Europa continua perdendo feio.
André sua pergunta é interessante e se vamos falar de produção mundial e exportação mundial, devemos ver como vai o consumo em cada um desses países. É este o calcanhar de aquiles do velho mundo. É queda no consumo de vinho em França e Itália que provoca a mudança de perfil na comercialização dos vinhos europeus. Saiba que muitos vinhos consumidos na França não são vinificados iguais à versão exportada. Vamos aos quadros.
Amanhã em mais.

31.3.07

Deve-se usar chips para os bons vinhos?


A tonelaria Verdou, fabricante de tonéis em Bordeaux,teve um aumento na venda de chips e tiras de carvalho de 200% como informou a revista inglesa Decanter em reportagem desta semana. Não que o uso tenha sido aprovado pelo INAO, agente regulador francês para os vinhos AOC, mas sim que a União Européia, UE, autorizou seu uso em 2005. O INAO ainda não publicou a regulamentação francesa para os AOC, pronta desde 2006, há interpretações considerando permitido seu uso. Há autorização na França para uso dos chips(copeaux para os franceses) nos vinhos regionais, Vin des Pays (VDP). Mas atenção mesmo a UE, para os AOC, só permite o uso após a fermentação diferentemente dos VDP.
Os chips são pedaços de carvalho que podem se apresentar sob a forma de pó, tiras ou granulados, que são utilizados durante ou após a fermentação alcoólica e buscam dar ao vinho um aroma de baunilha e madeira. Sendo um resíduo das tonelarias seu custo é ínfimo, diferentemente dos barris de carvalho. A reportagem não especifica os volumes vendidos pela tonelaria. Um aumento de venda de 200% num país em que até 2005 o uso de chips era permitido apenas em caráter experimental e, como hoje, sujeito a autorização da Aduana, Ministério das Finanças, pode não ser muita coisa, o que não invalida o debate sobre seu uso.
Conversei com Jacques Boscary proprietário do Château Rouquette Sur Mer que produz um muito bem reputado AOC Coteaux de Languedoc, La Clape, este ano com uma estrela no Guide Hachette para o seu branco e segundo o Guide um clássico. Os tintos merecem muito mais estrelas e possuem dezenas de outras premiações. Boscary afirma que tem conversado com diversos enólogos sobre o assunto. Há os que têm preconceito e não aceitam nem ouvir falar, no entanto os mais ponderados, com razão, defendem que em alguns casos, para os vinhos menores o uso dos chips pode ser interessante. Estes não são contra a priori. Quando um vinho tem pouco equilíbrio, falta fluidez e harmonia, um pouco do adocicado da baunilha e a madeira podem ajudar na manutenção da continuidade do desenvolvimento do paladar. Não é uma opção para os AOC. Eu não tenho necessidade disto uso apenas barris de carvalho franceses novos e continuarei trabalhando da mesma maneira. Mas não sou contra sistematicamente, afirma Boscary.
No Languedoc há 15 anos que se usa em caráter experimental, sob autorização, os chips para os VDP. Para o Vinifhor, Ofício National Interprofissional de Frutas, Legumes, Vinho e Horticultura, resultado da recente fusão entre ONIVINS e ONIFHLOR, que regulamenta a classificação VDP, o uso de chips passou a ser autorizado tanto na fermentação alcoólica quanto após esta. Segundo o enólogo Michel Rousset, responsável pela divisão VDP d'OC (Sul da França) deste Ofício, o uso de chips é uma técnica banal desenvolvida na França e utilizada tradicionalmente no novo mundo. Para Rousset seu uso não é simplesmente para dar um gosto de madeira ao vinho, este ajuda na estabilização da cor, é mais higiênico que as barricas com vários anos de uso e tem melhores condições de identificação de origem. Ao contrário do que dizem se o vinho não tiver uma boa estrutura, ficará mais magro e o resultado final será pior com a adição do copeaux. “O vinho tem de ser digno para receber o copeaux como para ser envelhecido em barricas”, assegura.
No mercado francês não há uma demanda por vinhos regionais com chips, pois aqui quando se compra um VDP se busca o frescor, o frutado, não a madeira e a baunilha. Mas em outros mercados, como o inglês, já podemos perceber uma demanda, explica o enólogo de VINIFHLOR.
Para o consumidor é importante notar que o uso do chip não permite que conste na etiqueta que o vinho foi envelhecido em barris de carvalho. Para fazer jus a esta menção é necessário, no mínimo, que o vinho tenha sido envelhecido seis meses em tonéis de carvalho. A permissão do uso dos chips na França é uma luta de anos que visa dar aos produtores do Hexágono as mesmas armas que os viticultores do novo mundo possuem. Este debate fica para uma outra matéria.

29.3.07

Foire aux Vins ou Feirão dos Vinhos

Neste momento na França começam os Foire aux Vins da primavera, o principal é entre setembro e outubro, depois da colheita. Para quem não conhece é um momento não apenas de venda de vinhos "encalhados", queima de estoque ou de oportunidades para os clientes. Muitos produtos que não são vendidos regularmente em um supermercado, cavista ou loja virtual são oferecidos. Mesmo restaurantes participam apresentando momentaneamente vinhos que não constam da sua carta habitual. O Feirão abre oportunidade para novos produtores, testa novos produtos e atrai milhares de consumidores. Uma fórmula que poderia funcionar muito bem no Brasil.
Neste momento, aqui na França, mesmo supermercados hard discount colocam produtos de alta qualidade para sua clientela. Carrefour e Casino, no Brasil Pão de Açúcar, fazem o mesmo com grande destaque em seus encartes. É interessante notar que muitos consumidores aproveitam este momento para comprar novidades que normalmente não estão na gôndola, pois como é o Foire aux Vins os produtores lutam para participar e oferecem preços diferenciados para este momento, na expectativa de que seus produtos sejam bem aceitos e encontrem novos consumidores. O lojista também tenta neste momento sair da mesmice e atrair a curiosidade de sua clientela. O Carrefour mais próximo da minha casa, em Narbonne, Sul da França, cidade de 60 mil habitantes, colocou mesmo um sommelier para orientar os clientes, pois havia tantos vinhos novos de diferentes procedências da França e até do exterior que se fazia necessária uma orientação para os mais interessados. Afinal, a população Sul da França é bairrista como no Rio Grande do Sul e dá preferência aos vinhos locais.
Os descontos variam de 5 a 50% mas isto não é o mais importante, relevante é que muitos simplesmente aparecem nas prateleiras e cartas de vinho pela primeira vez.

28.3.07

Os novos vinhos do Velho Mundo.


O paladar do consumidor brasileiro sofreu nos últimos 15 anos uma forte influência dos vinhos do novo mundo. O vinho chileno foi aquele que moldou mais o gosto nacional. Esta participação novo mundista se compõe também de californianos, australianos, africanos do sul e tardios argentinos que provocam, no momento, um grande estrago em mercados outrora cativos dos produtores europeus, sobretudo na Inglaterra e Estados Unidos, mas também aqui.

No Brasil, boa parte de uma nova geração de consumidores foi iniciada com os chilenos. Educaram-se com as tradicionais castas francesas merlot, chardonnay, cabernet franc, sauvignon e cabernet sauvignon que dominam por trás dos Andes. Nesses últimos 15 anos evoluíram os vinhos do novo mundo e o consumidor brasileiro. É claro que este degustou, provou, e comprou outros vinhos do novo e do velho mundo. Os brancos tiveram um grande crescimento quando da explosão de consumo dos vinhos alemães. Você se lembra da famigerada garrafa azul? Como se bebia vinho alemão, foram 3 milhões de litros em 98. Moda que passou e arranhou sua imagem. Hoje a presença germânica é diminuta e restrita a umas poucas vinícolas de excelência.

No Brasil observamos a diminuição da presença dos vinhos da Itália e principalmente da França que, no entanto reagiu em 2006 e cresceu 83%. Vimos com o fim da paridade peso-dólar a chegada dos vinhos argentinos de vinícolas tradicionais de um país que há muito produz, ama e consome bons vinhos. São 38 litros per capita ao ano contra 2 litros na média tupiniquim.
Não nos esquecemos do papel importantíssimo da nossa viticultura nesta educação enófila. Desde o simplório São Roque, que introduziu nos mistérios do vinho muitos que hoje são verdadeiros iniciados na arte da degustação aos melhores vinhos do Vale dos Vinhedos. Os produtores gaúchos realizaram um esforço que hoje coloca nossos vinhos em um digno patamar. Esforço que culmina com a elaboração de grandes espumantes na serra gaúcha. O consumidor acompanhou esta evolução e cresceu junto com uma melhor e diversificada oferta. Hoje aquele que descobriu no chileno o seu vinho predileto mostra-se um pouco cansado deste vinho bom, porém sempre muito parecido entre si, muito uniforme. É neste momento que uma nova onda se forma. Já se escuta entre os grandes estudiosos do vinho e os melhores sommeliers um burburinho, uma agitação em busca de algo novo, ou melhor em busca de algo velho, um verdadeiro back to the future. De volta para algo que estava faltando no Brasil: a diversidade.
Mas este retorno não podia ser de forma idêntica. Até por que no Velho Mundo também ocorreram mudanças. Novas apelações surgiram a partir dos anos 70, muitas técnicas de condução do vinhedo e de vinificação foram aperfeiçoadas.
O que está emergindo são os novos vinhos do velho continente. Com muita qualidade, rica diversidade de territórios, castas diferentes e preços competitivos. Estes novos vinhos começam a ser descobertos no Brasil e por toda parte. É uma linda redescoberta dos vinhedos europeus.