Vinhos do Sul da França é meu blog de original. Desde 2010 passei a escrever no Jornal do Brasil o blog Conexão Francesa. Com as mudanças de sistema do JB os posts acabam sendo apagados e passo a colar aqui alguns deles para manter este blog ativo e guardar a memória do trabalho publicado. Santé
La Revue du Vin de France selecionou 13 estrelas da degustação mundial para comentar a presença do vinhno francês no mercado internacional. Apenas craques: Jancis Robinson, Robert Parker, Simon Tam, Joel Payne, ... e o escolhido para falar em nome dos especialistas brasileiros foi Eduardo Viotti, da Vinho Magazine.
A matéria traça um perfil do vinho francês segundo cada degustador. Viotti fala da boa imagem do vinho francês no Brasil, mas mostra sua perda de mercado face aos vinhos de Chile, Argentina e Portugal. Os vinhos bons e baratos da França quase não chegam ao Brasil, afirma Viotti.
Interessante notar que a matéria de capa da RVF é um painel dos 100 melhores vinhos tintos do Languedoc e por coincidência um painel sobre os vinhos do Languedoc é tema da atual edição de Vinho Magazine, sintonizada.
Os vinhos do Languedoc são o que a França pode de melhor oferecer em custo/qualidade ao Brasil e ao mundo. Vinhos entre vinte e trinta reais podem ter pontuação entre 7,5 e 8,5 sobre um total de 10 pontos. Trazendo frutas, frescor, castas diferentes, elegância e convivialidade. Melhor Impossível.
Na busca para selecionar o chef francês do Languedoc Roussillon, que irá ao Brasil para o III Festival Sud de France, fui jantar no La Table du Saint Crescent, do chef Lionel Giraud . Selecionado pelo Guide Michelin, chef Giraud recebeu sua primeira estrela aos 25 anos. Hoje aos 31 e após ter reformado e comprado o imóvel onde se situa, a Table du Saint Crescent, seu objetivo é chegar à segunda estrela este ano. Um dos líderes do movimento de democratização da alta gastronomia que ele chama de fast good, em contraposição ao fast food. Defende uma comida saudável, criativa e saborosa. Seus pratos são verdadeiras obras de arte. Tanto no aspecto visual como no paladar. No menu “confiance” de 5 pratos, sobremesa, queijos e com direito a diversos “amuse bouche”, os vinhos do Languedoc a servidos foram chardonnay, sauvignon blanc, ambos Vin de Pays d’Oc, leves, um corbières blanc com corte de grenache branca e macabeu, da cooperativa de Embres Castelmaure e um belo tinto do Minervois o Domaine Sicard 2003. Todos se harmonizando muito bem. Destaco o Corbières branco bastante aromático, cítrico e que em alguns momentos lembrava um sauvignon e com seus aromas de grapefruit. O tinto era encorpado, longo, persistente, amplo e macio. Combinou muito bem com o peito de porco em compota ao vinagre balsâmico e sua espiral de batata Vittelotte ao grão de café. Fiquei com a impressão de que será um grande sucesso de crítica e público. Acredito que suas idéias vão instigar a imprensa. Em outubro no Le Pré Catelan do Rio e no P. Verger de São Paulo, ambos da rede Sofitel. Na foto ravioli de ostras, quente ao centro, espaguete e presunto da montanha Noir.
Carlos Eduardo Nogueira da Miolo apresenta seus vinhos.
Na Vinexpo, em Bordeaux, de 21 a 25 de junho, pude notar a presença de muitos brasileiros e de gente de todo o mundo. Se a perspectiva do salão este ano era pessimista, com expectativa de menos 15% de publico, a realidade se mostrou mais otimista, menos 8%. Se não foi um evento para tirar o setor da crise, por outro lado ele fez seu trabalho e movimentou o mercado como de costume. Se para alguns foi melhor para outros foi razoável. Uma aposta no BRIC (Brasil, Índia, Rússia e China) se confirmou. É destes países que o mercado espera ter um crescimento de demanda antes dos demais. Um painel sobre o BRIC aconteceu durante o salão.
O Brasil esteve presente com alguns produtores como a Miolo, Lídio Carraro, Casa Valduga e Dom Laurindo. Tive a oportunidade de provar os vinhos da Miolo e digo que gostei bastante do RAR(Rogerio de Almeida Rebouças) e do merlot Terroir, o badalado lote 43 me cansou. Achei muito importante a participação brasileira, todos juntos sobre a mesma bandeira tal qual Chile, Argentina, Itália, Espanha,... Brasil já confirmou presença em Vinexpo Hong Kong 2010 e Bordeaux 2011, com mais expositores. Sucesso. Qualidade tem. Espero que no Brasil possamos tomar os mesmos vinhos com os preços exportação. Sensivelmente mais baixos.
Se a presença estrangeira representou 35% do publico presente, foram os cavistas (lojistas) franceses, que sofrem mais a crise, que deram o bolo. Do lado internacional Coréia e Formosa decepcionaram. Brasil, China e Europa do norte aumentaram sua participação. Estavam presentes: Grand Cru, Interfood, Casa Flora, Expand, Casa do Porto, Tio Sam, Vinea Store, Cantu, Santa Luzia, Club du Taste Vin, Fasano e Zona Sul. Rio, São Paulo e Bahia disseram presente.
Dânio Braga, o craque nacional, era cumprimentado por onde passava, em italiano, francês, espanhol,...François Dupuis mesmo com agenda cheia tinha tempo para um papo com os amigos. Jorge Lucky se desdobrava entre a sala de imprensa, degustações, a consultoria para a Interfood e nos momentos de folga um alô pros coleguinhas. Arthur Azevedo, sempre simpático, percorria os stands ora com os sommeliers profissionais ora com importadores brasileiros. Aguinaldo Zakea acompanhava o boss da sempre ativa Vinea Store Walter de Souza e seu diretor de marketing Ivan Hannickel. O atencioso Roberto Jerfer, Fernanda Milred e Ana Rita da Expand visatavam antigos e novos fornecedores. Espero que todos tenham feito bons negócios.
Os grandes do Languedoc Roussillon ficaram no pavilhão 1 junto aos outros grandes châteaux, domaines e negociantes. Foi o caso de Chamarré, Gerard Bertrand, Jean Jean, Sieur d’Arques e Val d’Orbieu ( Vignerons de la Mediterranée). No pavilhão dois os independentes do Languedoc se juntavam a italianos, espanhóis e alguns bordelenses. Destaque para Famille Fabre, Rocbère e Bon Fils.
Esta é a sala de imprensa, mas bom mesmo era o bar da imprensa na sala ao lado.
Uma frente quente se instalou no Languedoc e a temperatura chega a atingir 38ºC, fácil. A garotada faz igual nos subúrbios do Rio e se refresca como pode. O fogo é outra presença constante no verão ontem foi em Caune-Minervois que um bosque de pinheiros ardeu. Mas as vinhas seguem bem pois suas raízes são profundas e buscam água até mesmo abaixo dos 50 metros. Como as chuvas na primavera e inverno foram generosas e o tempo está seco, o que diminuiu os ataques de mildio e oídio, até agora tudo vai bem com a safra 2009. Ou melhor com seu vinho de 2010.
Um recente estudo sobre o consumo de vinho no Brasil publicado pelo IWSR (International Wine and Spirit Record) coloca o Brasil como o segundo país consumidor da América Latina, logo depois da Argentina. O consumo atual é de 326 milhões de litros e o IBRAVIN (Instituto Brasileiro do Vinho) prevê um crescimento de 13% até 2011 elevando o total para 369 milhões de litros. O consumidor brasileiro está buscando vinhos de melhor qualidade, o que tem feito aumentar a importação. Isto fez com que no período de 2002 a 2007 ocorresse um aumento de 220% no volume e de 300% em valor dos vinhos importados. Esta tendência também beneficiou o produtor brasileiro de vinhos finos.
A crise mundial afetou as exportações e alguns importadores, mas parece que tudo volta a entrar num ritmo normal. A Vinexpo que começa dia 21 em Bordeaux e reúne a nata dos produtores mundiais e com enorme presença dos produtores do Languedoc Roussillon, terá um expressivo número de importadores brasileiros presentes. Destaque para Casa Flora, Casa do Porto, Zona Sul, Cantu, Fasano e Santa Luzia. Afinal, o consumidor brasileiro começa a se voltar para a qualidade e a diversidade. Neste quesito o Velho Mundo ganha de goleada.
Beber até meia taça de vinho por dia pode aumentar sua expectativa de vida em cinco anos. É o que afirma estudo científico realizado pela universidade holandesa de Wageningen e publicado no Journal of Epidemiology and Community Health, um jornal especializado. Bebendo outro tipo de álcool, como cerveja, por exemplo, o aumento da expectativa de vida é de 2,5 anos. O vinho oferece uma expectativa de vida duas vezes maior. Lembre-se a dose é de meio copo por dia, acima disto a expectativa diminui. O estudo não levou em conta a cor do vinho.
O papo é sério. A pesquisa levou quatro décadas, começou em 1960 e terminou em 2000. O grupo analisado foi de 1400 pessoas. Foram levados em consideração peso, hábitos alimentares, tabagismo e origem social. A conclusão aponta que o consumo de vinho contribui para evitar principalmente doenças coronarianas e cerebrovasculares.
Laurent Mingaud enólogo de Aimery e este blogueiro no Trapiche Adelaide em Salvador.
Foi muito boa a receptividade do público baiano aos vinhos do Languedoc Roussillon, em Salvador, no evento da Adega Tio Sam, que se realizou no Trapiche Adelaide dias 1 e é de junho. Profissionais e amadores ficaram encantados com o espumante da Aimery e com seus varietais tranquilos. O Corbières Les Deux Rives teve amplo sucesso. Os vinhos tinham preço que oscilavam entre 29 a 54 reais para o consumidor. O destaque francês ficou por conta do Pinot Noir Vicomte de Coussergue. Uma agradável surpresa para os enófilos que esperavam um preço mais salgado. Os vinhos foram degustados em avant première e chegam ao Brasil em final de julho.
Os Vin de Pays do Languedoc Roussillon, maior vinhedo do mundo, responsável por 33% de todo o vinho francês, de 20% dos seus AOC e de 70% de seus Vin de Pays. Este é notadamente de varietais ou de duas castas, aumentam seus espaços nas gôndolas e prateleiras brasileiras. Num cenário global em que a França em 2008 aumentou suas vendas em valor e diminuiu ligeiramente em volume os vin de Pays vão na contra-mão, cresceram.
Vinhos fáceis de beber e de se entender. O nome das uvas vem escrito no rótulo, o que facilita a vida do consumidor brasileiro habituado a comprar vinho de casta, o varietal.
Um crescimento de 4% em volume dos Vin de Pays do Sul da França quando o conjunto francês recuou de 27379hl para 24662 hl em 2008. Os VDP (não confundir com vin de table) atingiram 5578 hl.
Lembro que Vin de Pays não é classificação exclusiva de vinhos baratos. Mas de Daumas Gassac e Cuvée Mythique são vinhos antológicos e ambos vin de pays, o primeiro do departamento do Hérault e outro d’Oc, a classificação mais alta e rígida dos Vin de Pays. Ambos já receberam excelentes notas de Parker, Jancis Robinson, Guide Hachette,...
Claro, Vin de pays, normalmente é um vinho do dia a dia. Como são bons os vinhos do dia a dia, como são conviviais, como são companheiros de grandes momentos entre amigos.
Se estes vinhos cresceram é por que chegaram nos últimos anos ao Brasil vinhos de qualidade, adaptados ao paladar brasileiro, sem renunciar a sua autenticidade. Hoje nos oferecem prazeres diferentes dos que estávamos habituados, notadamente os de Chile e Argentina.
Ouse. Deguste um vin de pays de excelente qualidade ou simplesmente inicie-se no mundo dos vinhos por esta bela porta de entrada que são os vinhos do Languedoc Roussillon. Descubra novas uvas, novos sabores e o estilo Mediterrâneo de beber vinho.
Aproveito para pinçar um comentário do craque Philippe Faure-Brac sobre os vinhos do Languedoc Roussillon: -“O novo é o Languedoc Roussillon, isso é extremamente importante. Porque o Brasil é um país que tem um olhar sobre o futuro, é a novidade que se encaixa nesta perspectiva. É um vinho de boa relação qualidade preço, com grande volume de produção... há uma grande variedade de castas, uma grande diversidade de gostos, um amplo espectro de preços. É um bom caminho para aprender sobre vinhos”.